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Este vídeo foi produzido para ser apresentado em 26 de maio de 2022 na Latin American Speakers Series (LASS), Sur Gallery, Toronto, Canadá.

 

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Falar sobre a obra de arte é fazer um tipo de “tradução”, na qual muita coisa se perde (como em qualquer tradução) e parte do espaço negativo da obra é preenchida por interpretações guiadas.

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Há uma citação atribuída a pessoas como Laurie Anderson, Steve Martin e Thelonious Monk que diz: “escrever sobre música é como dançar sobre arquitetura”. A formulação mais antiga que discute a dificuldade inerente de escrever sobre música e a compara a fazer outra coisa sobre algo aparece na revista The New Republic, em 9 de fevereiro de 1918:

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“Considerado estritamente, escrever sobre música é tão ilógico quanto cantar sobre economia. Todas as outras artes podem ser discutidas nos termos da vida e da experiência ordinárias. Um poema, uma estátua, uma pintura ou uma peça teatral são representações de alguém ou de alguma coisa e podem ser descritos de maneira mensurável (à parte os valores puramente estéticos) descrevendo aquilo que representam.”

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No entanto, em todas as formas de arte – mesmo nas representativas – o que as torna arte não é o “conteúdo” representado, mas sua “forma”, sua “historicidade” ou talvez aquilo que aparece na citação como “valores estéticos”.

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Recentemente, por causa da pandemia, uma série de lives com artistas falando sobre seus trabalhos foi difundida nas redes sociais. Sempre que fui convidada a falar sobre meu trabalho, decidi apresentar videoconferências pré-gravadas em vez de uma palestra com PowerPoint e imagens, de modo que as referências e as próprias obras se misturassem em um movimento dialético. Com esse procedimento, eu esperava proporcionar uma experiência sensorial que estimulasse a reflexão intelectual. Algo entre uma palestra e uma obra, favorecendo a experiência sensorial em detrimento da reflexão intelectual.

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Em Autobiografia Obscena, imagens e sons de alguns dos meus trabalhos são sobrepostos ou justapostos. Uma voz feminina narra uma história criada a partir da apropriação de textos de autores que originalmente escreveram em português e em inglês – traduzidos para o português no áudio e para o inglês nas legendas: Guimarães Rosa, James Joyce, Anne Carson, Hilda Hilst e Pagu.

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O título Autobiografia Obscena é resultado da mutilação e remontagem dos títulos das duas obras das quais a maioria das frases usadas no vídeo foi apropriada: uma de uma autora canadense, Autobiography of Red, de Anne Carson, e outra de uma autora brasileira, A Obscena Senhora D, de Hilda Hilst.

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O termo autobiografia implica uma mistura entre a obra e a vida da autora; trata-se de um autorretrato. No entanto, toda obra de um artista é uma espécie de autorretrato. Se a vida de uma determinada autora influencia sua obra, a obra também influencia sua vida, às vezes modificando-a. Pode até ser difícil separar os dois campos sem prejuízo para ambos.

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Assim, toda obra é uma espécie de autorretrato, ou autobiografia.

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No entanto, todo autorretrato ou autobiografia também é uma mentira. Fernando Pessoa inicia seu famoso poema Autopsicografia com os versos:

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O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

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Assim, toda autobiografia – ou mesmo toda biografia – é uma mentira, afinal ela é sempre feita a partir de fatos ou imagens que alguém escolheu, selecionou, editou. É como uma fotografia de uma situação. Susan Sontag disse certa vez, em Diante da dor dos outros:

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“a imagem fotográfica, mesmo na medida em que é um vestígio (e não uma construção feita a partir de vestígios fotográficos díspares), não pode ser simplesmente uma transparência de algo que aconteceu. É sempre a imagem que alguém escolheu; fotografar é enquadrar, e enquadrar é excluir.”

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A segunda palavra do título do vídeo é “obscene” (obsceno). Uma das possíveis e mais repetidas etimologias da palavra “obsceno” vem do latim obscenus, que inicialmente significava mau agouro, tendo parentesco com a palavra obscuro. Nesse sentido, o obsceno sugere o oculto, o secreto ou algo que se impõe à cena para obstruí-la, violando a visão.

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Obsceno também pode derivar do latim ob-caenum, que se refere a algo sujo, lamacento, indecente e imundo, ou de ob-scaenam, isto é, aquilo que permanece fora da cena, o que não é mostrado em uma peça teatral, aquilo que estaria fora de lugar no palco.

Na Grécia Antiga, a origem da palavra obsceno – ob skené – também está ligada ao teatro. Na estrutura espacial do teatro grego, à época de Ésquilo, surgiu a skené. Esta era, inicialmente, uma cabana de madeira onde os atores se preparavam para atuar. Mais tarde, os gregos passaram a usar esse espaço de outra forma. Ali se representava aquilo que era considerado impróprio para ser mostrado aos espectadores, como, por exemplo, a encenação de sacrifícios. O público tinha apenas uma intuição do que acontecia atrás da cena, ouvindo ruídos e até sentindo o cheiro do sangue dos animais efetivamente sacrificados.

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Dora Longo Bahia
26/05/2022

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